Vesânia – livro de Márcio Almeida

A ARS POETICA em MÁRCIO ALMEIDA

infelizmente o dizer não se coaduna
com as ações: basta-lhe a expectativa
de algo a acontecer. dizer é simpática
ideia recorrida antes do decurso
mesmo sem haver prazo para
conclusão. fosse a leitura
vesânica do mestre
márcio almeida
grafada em maiúsculas
que aqui se transforma
não por menoridade
ou inferioridade
ou desdita
ou desdizer
ou apenas
por querer lhe fazer as honras
pelas histórias (ainda) descontadas
fossem cheques voadores antigamente
utilizados para saques e pagamentos

dizer absurda o ser que se entretém
em negaças e fogos artificializados
como lareira cinematográfica
sem a necessidade de lenha
– decorativa – e fumaça
de olfato e lágrimas
mas o texto consentâneo
a tecer entretextos
sem a necessidade
de entrelinhas
e mazelas

vesânia ativa minha sensação
de perda no trabalho realizado
para a satisfação do patrão
mesmo sendo estado
e fisicamente estável
em promoções e salários
de hoje para amanhã

mas o autor sem qualquer vesânia
sabe – soube – bem traduzir o esvaziado
oco do santo em madeira carcomida
ao se referir ao entrópico acordo
a que nos referimos em almoços

porca miseria diriam uns e outros
advindos em busca de salvaguardas
que a misericórdia não transita
vales e morros e planícies
em botas e portaluppis

mestre almeida ao anunciar
o caos estremado em tantos
dizeres faz o dever de casa
sem que a casa deva impostos
e aluguéis: quem retorna sabe
do sacrifício em ter saído
que sair é transtornar o mito
e voltar atomiza o rito
sem passagem

des(d)enhar no signo
a verbalização em função
leitora na dessemelhança
cartograficamente poética
que deserda originalmente
na metragem angelical
da loucura que nos vigia
e assombra médicos
e enfermeiros assemelhados
no transitar cotidiano
antes da fama encenada
pelo fluxo desdobrado
no nome de quem
(ainda) vive o saber
conceituado ao ultraje
siliconadamente
significado na lógica
dos jogos e lúdicas
criações das verdades
que nos atravessam
pelo receio de sermos
– talvez – quem se vê
aurora obscura
em diálogos que teimam
o imaginário em que nos realizamos.

(Pedro Du Bois, inédito)