EXPOSIÇÃO | PADRE MANUEL ANTUNES: PEDAGOGO DA DEMOCRACIA | CASA DA TORRE, em Soutelo

Encontra-se patente na Casa da Torre, em Soutelo, a Exposição Itinerante Padre Manuel Antunes, sj: Pedagogo da Democracia (1918-1985).

Esta exposição, que integra as atividades do centenário comemorativo de nascimento do Padre Manuel Antunes, sj, e que celebra a Vida e a Obra deste ilustre jesuíta e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, poderá ser visitada durante as próximas semanas naquele que é o Centro de Espiritualidade e Cultura da Companhia de Jesus – Casa da Torre (https://pontosj.pt/casadatorre/).

Para mais informações sobre esta efeméride e a presente exposição, consulte-se http://centenariopadremanuelantunesj.pt/pt/ e http://centenariopadremanuelantunesj.pt/pt/exposicao-itinerante/.

Convidamos vivamente à visita e agradecemos ampla divulgação.

EXPOSIÇÃO ITINERANTE

PADRE MANUEL ANTUNES, SJ

PEDAGOGO DA DEMOCRACIA

1918-1985

Há grandes personalidades pouco conhecidas, mas que sonharam um mundo melhor e inspiraram a sociedade livre e democrática em que hoje vivemos. O Padre e Professor Manuel Antunes, sj (1918-1985), foi uma dessas figuras extraordinárias que nasceu há cem anos, no fim da I Guerra Mundial.

Formou-se na Companhia de Jesus, tornou-se padre jesuíta, foi professor de mais de 15 mil alunos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ensinou jovens que se tornaram grandes líderes, professores, poetas, atores, escritores, ajudou muitos com sabedoria e paciência revolucionária, aquando da perseguição política e da censura, de que também foi alvo.

Pensou e escreveu sobre os diferentes temas e problemas do mundo do passado, do presente e do futuro. Escreveu os seus textos, assinando-os com 126 pseudónimos, sobre filosofia, psicologia, história, teologia, literatura, sociologia, antropologia, economia, política, sobre civilizações antigas e modernas e sobre os diversos povos, países e continentes do mundo. Deixou um exemplo de homem bom e universal. É o percurso e a obra desta figura fascinante, o Professor Manuel Antunes, sj, considerado um dos maiores sábios do século XX, que damos a conhecer nesta exposição.

Ressonâncias de um Sábio Discreto

“Nos auspiciosos e utópicos anos 60 e 70 do século XX, Manuel Antunes emergiu como um intelectual da cidade e do mundo com um pensamento político e social inovador, propetivo. Antunes era um hermeneuta fino do presente e um pensador político do futuro.

Na verdade, o P.e Manuel Antunes (1918-1985) legou-nos um pensamento muito sagaz e avançado sobre Portugal e a Europa, na relação com o mundo em processo de globalização. A reflexão antoniana está patente num número significativo de textos, alguns deles com carácter prospetivo, que ainda hoje podem ser lidos com grande proveito, pois mantêm uma atualidade plena. Aliás, Manuel Antunes soube antecipar, nos anos 60 e 70 do século XX, com uma argúcia e lucidez extraordinárias, derivas, problemas e desfechos da vida portuguesa e internacional.

[…]

O P.e Manuel Antunes distinguiu-se como diretor e redator da prestigiada revista Brotéria (1965-1982), para a qual escreveu centenas de artigos sobre educaçãoo, cultura, filosofia, classicismo, política, teologia e economia, assinados quer ortonimamente, quer com recurso a pseudónimos. Ao todo, são 126 os pseudónimos conhecidos sob os quais Manuel Antunes assinou muitos dos seus escritos, sendo por esse motivo considerado o autor lusitano que mais recorreu à pseudonímia, recurso sistemático que se justifica pela necessidade sentida de iludir a censura do Estado Novo.

[…]

Mas a sua ação mais marcante aconteceu nos auditórios da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi professor de disciplinas filosóficas e humanísticas durante dezenas de anos (1957-1983). Ali formou mais de 15.000 alunos, mormente com a cadeira de História da Cultura Clássica, que era transversal aos vários cursos de Letras, entre a década de 50 e a década de 80. As suas aulas são recordadas, pelos seus alunos que hoje exercem atividade profissional e cultural em diversos sectores da sociedade portuguesa, como uma referência, pelo seu saber e pela sua capacidade pedagógica invulgares.”

(Da Introdução de José Eduardo Franco ao livro A Anatomia do Presente e a Política do Futuro: Portugal, a Europa e a Globalização – Padre Manuel Antunes, Lisboa: Bertrand Editora, 2017, pp. 17-19.)

Abertura do livro Repensar Portugal (1979), pelo Padre Manuel Antunes, sj:

“De um dia para o outro tudo pareceu novo. Era o fim das palavras longamente proibidas, dos gestos apertadamente contrafeitos, de uma certa mentira institucionalizada, do terror invisível, mas presente em toda a parte. Era a possibilidade do termo do isolamento internacional, daquele ‘orgulhosamente sós’ que é a contradição mesma do mundo em que vivemos. Era o surpreso despertar de um pesadelo de anos, cada vez mais denso, cada vez mais escuro. Era o emergir da ‘apagada e vil tristeza’ para um mundo outro, o mundo da esperança na sua dimensão histórica tangível.

A revolução foi a festa. […]

E, de repente, o País pôs-se a falar. Nestes últimos quinze dias, Portugal tem sido um país que discute, um país que reivindica o possível e o impossível, um país que quer tomar nas mãos o próprio destino, um país que, embora de forma não raro confusa, se esforça por traçar o seu future, um país que busca reencontrar a própria identidade. Como em 1385, em 1640, em 1820, em 1910, em 1926.

Reencontrar o antigo, por vezes mesmo, o mais antigo, para criar algo de novo. É isso mesmo o que define nos seus dois termos opostos uma revolução. A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de ruptura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo e quase tão funda como a do Povo teóforo.”

(Padre Manuel Antunes, sj, Obra Completa, t. III, vol. I, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pp. 26-27.)